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  Construindo um Acordo de Nível de Serviço Eficaz

 
  Como criar um SLA a partir do que realmente faz a diferença.

 
 
Rodrigo Guerra, PMP (rodrigo.guerra@in-haus.com.br): é formado em Engenharia Mecânica e Física com pós-graduação em Gerenciamento de Projetos pela George Washington University e MBA em Finanças pela FIA. É diretor de Logística em In-Haus e possui mais de 15 anos de experiência em logística, TI, Gestão e Estratégia de Negócios, já tendo atuado em várias empresas no Brasil e nos EUA.
A construção de um Acordo de Nível de Serviço (SLA - do inglês Service LeveI Agreement) entre um cliente e um fornecedor, ou até mesmo entre diferentes áreas de uma empresa, é um processo árduo, mas que pode ser muito simplificado se alguns conceitos importantes forem observados. O modelo proposto, exemplificado através de uma situação fictícia, mas baseada em fatos reais, demonstra como colocar em prática a experiência do autor e ao mesmo tempo traz alertas importantes sobre as principais dificuldades que serão encontradas ao longo do processo.

Independentemente de qualquer pesquisa ou estudo de instituto renomado, quando o assunto é a logística de uma empresa, saber o que medir e quais indicadores utilizar é uma questão de bom senso, isso não significa de forma alguma jogar a educação forma pela janela, queimar revistas técnicas e ignorar orientações de consultores. Falamos de dosagem. Para nós, bom brasileiro que somos, adicionar uma dose extra de cachaça na caipirinha vai deixá-la mais forte, mas não necessariamente mais palatável, assim como cinco colheres sal a mais podem arruinar a feijoada de sábado.

Como indicadores (ou KPIs - do inglês Key Performance Indicators) a questão é idêntica. Para medir a performance de uma operação com 50 indicadores se dez bastam? Imagine você como diretor-respensável por uma oração complexa, mas sem tempo para se envolver com detalhes do dia-a-dia. Como você se certifica que sua logística está redonda (vide eficiente), enxuta (vide eficaz) evoluindo com o passar do tempo (vide aumentando produtividade)? Quais indicadores você cobraria da equipe? E, principalmente, como é que você cobraria performance na operação?

A partir destas preocupações é que surgiu o Acordo de nível de Serviço (ou SLA - do inglês Service Level Agreement). O SLA nada mais é do que o estabelecimento de um acordo, entre duas partes, do que será entregue na execução de uma operação, e os KPls servem para demonstrar se que foi combinado está sendo entregue. Em outras palavras, o SLA estabelece as regras e os KPls medem se a operação está compatível com as regras de eficiência, eficácia e produtividade estabelecidas.

O estabelecimento de um SLA, seja com um prestador de serviço ou com o grupo orgânico responsável por uma área da logística de sua empresa, passa necessariamente peIos seguintes passos:

1. Estabelecimento dos quesitos devem ser mensurados:
os quesitos representam a essência DO QUE será medido na operação. Perceba que quesitos não são KPls e, portanto, não estabelecem o COMO medir, apenas O QUE medir.

2. Estabelecimento de como os quesitos serão medidos:
é justamente neste ponto que entram os KPls. Enquanto os quesitos estabelecem O QUE será medido, os KPI definem COMO cada um dos quesitos será mensurado.

3. Estabelecimento das metas de cada KPI: não é necessário apenas utilizar os KPls para medir os quesitos, muitos KPls precisam de metas estabelecidas para seu bom funcionamento, como veremos mais à frente.

4 - Formulação de como a nota final do SLA será calculada:
a partir dos quesitos e dos KPls, gera-se o padrão de cálculo da nota final do SLA.

5 - Definição do bônus e ônus do SLA:
a partir da nota final é altamente recomendável que o resultado impacte o prestador do serviço positivamente, caso a performance seja acima do esperado, ou negativamente, caso a performance seja abaixo do esperado.

Considerando que a definição dos quesitos, dos KPls e das metas é intrínseco a cada empresa e a cada operação, ao invés de analisarmos a formação de um SLA de forma genérica, utilizaremos um exemplo simulado baseado em situações reais.

Estudo de caso simulado: formação de um SLA com a equipe de expedição da PetroK


A empresa PetroK Petroquímica S.A. ("PetroK") produz resinas termoplásticas em sacos de 25 quilos. A sacaria é toda paletizada. Cada palete possui 55 sacos que, após o stretch, é entregue pela equipe de produção na porta do armazém da própria PetroK. O armazém, recentemente construído, possui 20.000 m² de área útil e tem um único modal de expedição rodoviário. A armazenagem e a expedição dos paletes são realizadas pela equipe de expedição.

No último ano, a produção da PetroK aumentou em 30% devido a instalação de novos reatores, mas as vendas subiram apenas 25%, ficando um pouco abaixo do esperando. Com o crescimento da produção, o recebimento ficou bastante pressionado. Com o crescimento das vendas, a expedição tornou-se um gargalo. Note que a diferença de 5% entre o aumento na produção e o aumento nas vendas rapidamente lotou o armazém da PetroK que agora opera em capacidade máxima e já faz a utilização de armazenagem 'contingencial' em armazéns externos. Perceba também que mesmo as vendas não tendo subido tanto quanto a produção, com a maximização do armazém principal, a expedição também passou a operar em uma faixa de volume 30% superior a do ano passado.

Buscando solucionar o problema, a PetroK decidiu terceirizar a operação do armazém com um Operador Logístico ("OpLog" - nome fictício), estabelecendo com o mesmo um Acordo de Nível de Serviço. Reuniu-se uma equipe de implantação do projeto composta por membros da produção, da logística e da gerência da PetroK. Após algumas reuniões, definiu-se que a PetroK avaliaria a OpLog de acordo com os seguintes quesitos:

Quesito 1: Eficiência do Recebimento - Nenhum palete entregue pela produção pode ficar mais de 2 horas na área de recebimento. Caso contrário, a área ficaria lotada e haveria mistura de lotes de fabricação. Em conseqüência, isso poderia causar riscos de segurança e prejudicar a entrada de dados no WMS.

Quesito 2: Eficiência da Armazenagem - O armazém precisa ser utilizado em sua capacidade total, caso contrário, seriam incorridos custos desnecessários com armazenagem 'contingencial', Se o armazém estivesse mal organizado e subutilizado em 500 toneladas, seriam 500 toneladas a mais armazenadas externamente. A um custo de R$ 20/mês por tonelada, isso significaria R$ 120.000/ ano para a PetroK.

Quesito 3: Eficiência e Eficácia da Expedição - Caso a demanda diária de expedição não fosse atendida, ou se o produto de um cliente fosse entregue em outro por engano, clientes começariam a reclamar do atraso e da falta de qualidade da entrega. Isso prejudicaria muito a imagem da PetroK, causando, em último caso, a possível perda de clientes.

Quesito 4: Atendimento às Melhores Práticas de Saúde e Segurança - Em hipótese alguma, produtividade vem antes de segurança. Para certificar que o OpLog não preteria um ao outro, ele também seria avaliado de acordo com o atendimento às melhores práticas de saúde e segurança.

Tendo os quesitos claramente definidos, o próximo passo é definir os KPls que os mediriam e as metas específicas para cada um deles:

  • Quesito 1: KPl1: Atendimento à Demanda de Recebimento Acordada (ARA)
    ARA = £((total de paletes recebidos no dia) / (meta de recebimento de paletes acordada)) / (total de dias trabalhados no mês)
    Meta de Recebimento de Paletes Acordada = 1.500 paletes por dia.
    Se em um dia forem entregues 1.500 paletes pela produção, mas recebidos 1.400 paletes pela OpLog, a nota do dia é 1.400/.1500 = 93,3%. A nota do ARA é a média de todos os dias trabalhados.

    Obs.: na realidade,o SLA é mais complexo, pois precisa levar em consideração os horários de entrega, as horas extras que precisam ser realizadas, etc. Como cada operação tem sua particularidade, estes itens foram omitidos para facilitar o entendimento do processo como um todo. Esta observação vale para todos os KPls descritos a seguir.

    Obs.: a meta, neste caso, poderia ser estabelecida em termos de toneladas. Aqui, a medida utilizada (palete) serve apenas como exemplo.

  • Quesito 2: KPI 2: Maximização da Capacidade de Armazenagem (MCA)
    MCA = £((ocupação real diária) / (ocupação ótima diária)) / (total de dias trabalhados no mês)
    A "ocupação ótima" é definida pela otimização teórica do armazém. Por exemplo: 3 boxes, cada um com capacidade para 20 paletes, possuem, respectivamente, 10 paletes, 5 paletes e 3 paletes do mesmo lote. A "ocupação ótima" é 1 box com 18 paletes. Note que a "ocupação ótima" leva em consideração que não é possível alocar mais de um lote no mesmo box. A nota do MCA é a média de todos os dias trabalhados.

  • Quesito 2: KPI 3: Acuracidade do Inventário
    (ACI) ACI = 100% - (percentual por tonelada ausente)*(toneladas ausentes)
    Percentual porTonelada Ausente = 1 %

  • Quesito 2: KPI 4: Housekeeping (HOU)
    HOU = nota do relatório de limpeza do armazém de acordo com os formulários específicos.

  • Quesito 3: KPI 5: Tempo Médio de Caminhão no Site (TMC)
    TMC = (total de tempo da presença dos caminhões no site) / (total de caminhões no site) / (meta de tempo médio de caminhão no site)

    Meta de tempo médio de caminhão no site = 0,8 horas.

    Apenas para veículos de transporte de produtos acabados que têm seu tempo no site definido - estão exclusos casos especiais de contratação de veículos para serviços de manutenção ou em casos onde haja quebra de equipamentos do processo produtivo.

  • Quesito 3: KPI6: Atendimento à Demanda de Expedição Acordada (ADE)

    ADE = £((total de toneladas expedidas no dia) / (total de expedição acordada)) / (total de dias trabalhados no mês)

    A meta de expedição é de 2.000 toneladas por dia. Se em um dia forem expedidas 1.900 toneladas, havendo pedido para 2.000, a nota do dia é 1.900/2.000 = 95%. A nota do ADE é a média de todos os dias trabalhados.

  • Quesito 3: KPI 7: Avarias na expedição (AVA)
    AVA = (peso de varredura) / (peso expedido) / (meta de avarias acordada)
    Meta de avarias acordada = 0,020%

  • Quesito 3: KPI8: Não-Conformidade na Expedição (NCE)
    NCE = 100% - (constante de não-conformidade na expedição) *(número de não-conformidades na expedição)
    Constante de não-conformidade externa = 1 %
    Não-conformidades na expedição podem ser produtos enviados errados, produtos com avarias, avarias no transporte devido a um mal assentamento, etc.

  • Quesito 4: KPI 9: Não-Conformidade do Sistema de SSMA (NCM)
    NCM = 100% - (constante de não-conformidade do sistema de SSMA) * (número de não-conformidades internas abertas)
    Constante de não-conformidade do sistema de SSMA = 1 %
    Não-conformidades incluem, por exemplo, indisponibilidade de uma análise de segurança da tarefa na área, desvios identificados e não tratados em 48 horas, procedimentos desatualizados, indisponibilidade de uma matriz de conformidade das operações, etc.

  • Quesito 4: KPI 10: Execução dos Diálogos Diários de SSMA (DDS)
    DDS = (diálogos diários de SSMA executados) / (dias úteis trabalhados)

  • Quesito 4: KPI 11: Execução das Verificações de Aderência aos Procedimentos (VAP) VAP = (VAPs executadas) / (meta mensal de VAPs)
    Meta mensal de VAPs = 10 por planta
    VAPs são auditorias internas para auferir se todos os procedimentos são desempenhados de acordo com o descrito e de acordo com o treinamento oferecido.
    O próximo passo é alinhar os pesos de cada um dos quesitos e, em seguida, os pesos de cada um dos KPls. Observar esta ordem é importante, caso contrário pode-se acabar com quesitos com poucos KPls (como é o caso do quesito 1 a seguir) ou KPls com um peso muito elevado na nota final do OpLog. Observe o exemplo na tabela a seguir.

    (1)
    Quesito
    (2)
    Peso do
    quesito na nota total
    (3)
    KPI
    (4)
    Peso do KPI
    no quesito
    (5)=
    (2)*(4)
    Peso do KPI na
    nota total
    Quesito 1: Eficiência do
    Recebimento
    20%
    KPI 1: Atendimento à Demanda de
    Recebimento Acordada (ARA)
    100%
    20%
    Quesito 2: Eficiência da
    Armazenagem
    10%
    KPI 2: Maximização da Capacidade
    de Armazanagem (MCA)
    60%
    6%
    KPI 3: Acuracidade do Inventário
    (ACI)
    30%
    3%
    KPI 4: Housekeeping (HOU)
    10%
    1%
    Quesito 3: Eficiência e
    Eficácia da Expedição
    50%
    KPI 5: Tempo Médio de Caminhão no Site (TMN)
    20%
    10%
    KPI 6: Atendimento à Demanda de
    Expedição Acordada (ADE)
    40%
    20%
    KPI 7: Avarias na Expedição (AVA)
    20%
    10%
    KPI 8: Não-Conformidade na Expedição (NCE)
    20%
    10%
    Quesito 4: Atendimento
    às Melhores Práticas de
    Saúde e Seguranca
    20%
    KPI 9: Não-Connformidade do Sistema de de SSMA (NCM)
    30%
    6%
    KPI 10: Execução dos Diálogos Diários
    de SSMA (DDS)
    30%
    6%
    KPI 11: Execução das Verificações de
    Adarência aos Procedimentos (VAP)
    40%
    8%

    Total:

    100%



    A última etapa no desenvolvimento de um bom SLA é "fazê-Io valer": Qual o estímulo que teria o OpLog para acompanhar todos os KPls definidos se eles não trouxessem algum impacto financeiro para seu contrato? A definição de incentivos na forma de bônus e ônus é fundamental. Neste caso, o padrão definido pela PetroK foi o seguinte:

    O estímulo oferecido ao OpLog é claro e eficiente. Uma performance acima dos padrões estabelecidos beneficiam o OpLog enquanto uma performance abaixo da expectativa gera uma penalidade no faturamento que certamente funcionará como estímulo para o mês seguinte.

    Considerações finais

    Embora o caso da PetroK seja fictício, ele é baseado em experiências reais. Os exemplos de Quesitos, de KPls e dos percentuais de bônus e ônus também são reais e utilizados em vários contratos em indústrias de diversos setores da economia.

    O estabelecimento de um SLA, porém, não é uma tarefa fácil. Muitas vezes, leva-se meses para criar a disciplina de medir até mesmo os KPls mais simples. Porém, a missão precisa ser encarada como um desafio que, quando superado, trará grandes vantagens econômicas e financeiras para toda a empresa.

    Na intenção de auxiliar o leitor com a implantação de um SLA, siga esta lista de principais questionamentos que precisam estar constantemente em evidência:

  • não confunda a criação de um SLA com a terceirização de uma operação. O Acordo de Nível de Serviço pode ser estabelecido com um grupo da própria empresa exatamente da mesma forma que seria feito com um OpLog. Lembre-se que existem inúmeras maneiras de se incentivar funcionários próprios;

  • pergunte se a operação para a qual você deseja criar um SLA é vista pela corporação como a prestação de um serviço ou como uma mera alocação de mão-de-obra. Muitas vezes, empresas terceirizam pessoas e não serviços. Se o contratado foi a prestação de um serviço, cobre por ele com o SLA, independentemente do número de colaboradores ou de equipamentos alocados;

  • lembre-se que na maioria dos casos os KPls precisam ser indicadores de eficiência ou de eficácia e que precisam sempre ter um lastro econômico ou financeiro. Caso contrário, para que envidar esforços medindo algo que não traz nenhum resultado para a empresa?;

  • estabeleça muito claramente o perímetro da medição. É comum utilizar KPls que trazem uma visão tendenciosa ou enganosa de uma operação. Um exemplo clássico é a quantidade de toneladas expedida por colaborador. Note que este KPI, embora muito utilizado para medir produtividade, não leva em consideração as horas extras feitas pela equipe. Muitas vezes, é melhor adicionar colaboradores (diminuindo assim o KPI ton/colaborador) a fazer horas extras em demasia;

  • entenda que na maioria das vezes um dos maiores entraves na criação de um SLA é estabelecer metas para cada um dos KPls. Em muitos casos, serviços que nunca foram regidos por um SLA não têm muito histórico, tornando o estabelecimento de metas bastante complicado. Neste caso, crie um plano de ação e acompanhe alguns KPls durante o tempo que for necessário, para ter certeza que as metas a serem estabelecidas são justas;

  • atenção para não misturar o conceito de SLA com o conceito de produtividade. Em muitos casos, empresas estabelecem KPls que medem a produtividade de uma operação e metas móveis para estes mesmos KPls. É justo que uma empresa sempre busque ganhos de produtividade, mas o SLA nada tem a ver com isso. Uma coisa é envidar esforços para que uma operação atinja o patamar de qualidade acordado, outra bem diferente é correr atrás de um objetivo que jamais será alcançado por estar sempre mudando. É claro que é possível estabelecer metas de produtividade, mas estas devem ser tratadas de forma à parte e ser estimuladas através de outros métodos;

  • por último, saiba que há inúmeros quesitos pelos quais uma operação pode ser avaliada e inúmeros KPls para mensurá-Ia. Não se atrele somente aos quesitos e KPls mais utilizados no mercado. Invista sua energia definindo os que realmente vão medir o resultado econômico e financeiro de sua operação, mantendo sempre em perspectiva que um cliente bem atendido é um dos maiores bens que qualquer empresa pode ter.
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      Fonte: Revista Mundo Logistica - Janeiro/Fevereiro de 2008  
         
      Data da publicação no Web site da CompanyWeb 02/06/2008

     
         
     
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